A Feira da Praia de 1971 às portas da edição de 2022

opinião josé estêvão cruz

Aproxima-se a Feira da Praia, instituição secular que começou em Monte Gordo em 1765 e todos os anos se repete em Vila Real de Santo António, desde que assim foi ordenado no reinado de D. José I.  A Feira da Praia representa, no calendário do comércio e da promoção turística do concelho a oportunidade de criar condições par sustentar muitos dos dias difíceis do resto do ano.

De 10 a 15 de outubro, Vila Real de Santo António realiza a Feira da Praia ao longo da Avenida da República e da Praça Marquês de Pombal. Aqui acorrem milhares de visitantes, principalmente espanhóis com ponto alto no feriado de Espanha, no dia 12 para compras na Feira e no comércio local.

Na Avenida da República vende-se de tudo um pouco, desde roupas a utensílios de cozinha, passando por artesanato e brinquedos, tendo a Praça Marquês de Pombal com maior oferta de produtos alimentares, como feijão, grão, frutos secos, queijos e enchidos de vários pontos do país.  

Em 1971 escrevi para o Jornal do Algarve um texto que aqui deixo aos nossos leitores mais velhos para recordarem e aos mais novos como retrato escrito do passado.

FEIRA VAI, FEIRA VEM

Feira!

Feira! Fenómeno medievo, constante como a passagem da terra pelo mesmo ponto da órbita. Aos primeiros sintomas, logo a criança desata em berreiro, olhitos arregalados, estupefactos, sem compreender o porquê da negação de quanto deseja.

Feira! Sempre monótona, sempre igual a si própria, tradição que o peso dos anos não rebenta nem altera. Bom seria que cambiasse. Neste caso: uma feira em particular, a da minha terra. Vila Real de Santo António. Este ano teve uma iluminação nova: uma nova desilusão. Aquelas rosetas que, pelo dia, pareciam querer relvar o azul do céu, transformaram-se, na noite, num ser amorfo e sem vida, prejudicadas pela profusão das lâmpadas transparentes que deixavam escapar uma luz amarelenta, difusa, roubando-lhe a beleza. Ah! Antes prefiro a iluminação do dia, muito mais bela. Em qualquer dos casos salvou-se a boa intenção.

Feira! Miscelânea de barracas, louças, vidros, talheres, cobertores ao preço da água, ciganos sujos e garotos lambuzados, seminus, velhas carregando peso dos anos. Feira de miséria e fartura, toda uma urbe que esganiça a voz num pregão de desespero numa esperança, tantas vezes infundada de conseguir uns cobres para o sustento do corpo.

Feira! Em Vila Real de Santo António, é «Internacional». Não nos artigos expostos, – a não ser nos importados -, mas pelos frequentadores. o turista (sim porque esta é uma terra de turismo, apesar desse fator ser muitas vezes olvidado como agora) inglês, francês, alemão e acima de tudo «nuestros hermanos» que aqui acodem, ávidos das bijuterias com que presenteiam a vaidade e «el café que es mui bueno» merece muito mais.

Espanhóis! Oh, que barulho, que confusão e que alegria transbordante. São felizes porque vivem. Por eles há toda uma guerra, todo um alerta, – que às vezes escapam com alguma «coisinha» na maleta. Das cordas vocais dos feirantes sai uma linguagem que pretende ser de Espanha «Usted», «Pésetas» «Muy buenas», vocábulos que a nós, raianos, coram ou fazem sorrir da desgraça alheia. Ou será tipicismo?

Feira! Os frangos exalam odor característico rodando sobre si mesmo acima das brasas, ajudadas pelo sol. Gritos, berros, apitos, rocas, «Quem dá mais!». Num altifalante á «feedback», noutro música comercial. O «Poço da Morte», venham ver! Coragem, audácia, emoção, arrojo, desprezo pela vida.! Ah, quantas vezes o quotidiano nos pede tudo isto! Carrosséis às voltas, às voltas; uns cavalinhos vazios outros carregados de gente: que cruel é o povo! Passo rente às barracas e vejo as pistolas reluzentes, se no meu tempo tivesse a verba de agora… Fulminantes «pum-pum!» e os «Matraquilhos»?, «Zás, catrapaz, gooolo!» Feira! Que morre e desmaia na noite, quando as barracas já fechadas dão descanso ao nobre povo. Bêbados que vagueia sem rumo ao longo da grande artéria. Polícias que fazem apelos íntimos à paciência para calmamente os aturar em. Espinho ingrato. quantas vezes.

Feira! Afinal tudo cansa! Mesmo sendo uma em cada ano, os anos correm vertiginosos para que de um a outro olvidemos. Para as crianças sim, tudo é revelação. Até um simples «yo-yo». Junto a este tradicionalismo, a este tipicismo que é irmão da miséria, não se poderia fazer algo mais evoluído, mais são? Temos um rio para regatas, sobra a avenida para um «rally», há tauródromo e um campo de futebol. Tivessem outras terras tudo isto! Iria tirar frequência à feira, antes pelo contrário. Quem faz a glória é a fama. Este ano já vamos tarde, mas será que vou perder a fé nos homens e acreditar que na próxima volta da Terra verei o rio sem barquinhos, a avenida sem os carros e nenhuma corrida de touros ou qualquer outro torneio de futebol? Ninguém dá mais sugestões? Dão-se alvíssaras! Gostava de poder confiar…

José Estêvão Cruz, 1971

Recorte do Jornal do Algarve

feira da praia 1971
feira da praia 1971