Opinião
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Acerca de Vocações ou Chamamentos

Crónicas Avulsas

É um facto que cada um de nós se diferencia de todos os outros indivíduos da nossa espécie e, por via dessa dissemelhança, podemos afirmar que todos somos seres únicos e especiais. Para além das diferenças físicas ou de carácter, aquilo que nos distingue dos outros pode não ser imediatamente perceptível, nomeadamente, a formação ou a educação que recebemos e de que beneficiamos. Sendo nós uma espécie de vida longa, nalgum momento desse percurso, as circunstâncias hão-de brindar-nos com a oportunidade de demonstrar que é mesmo assim.

Para alguns essa ocasião surge-lhes depressa, quantas vezes sem que o percebam e sem qualquer esforço; para muitos outros, apesar da energia despendida nessa procura e da boa preparação para o efeito, a “chance” chega-lhes mais tarde. Quando assim é, convém não entrar em desespero e não atribuir responsabilidades a terceiros pela demora. É uma questão de estar atento e criar condições para que aquilo que se espera que aconteça, simplesmente aconteça: este exercício, sem que o pareça, pode dar um trabalhão imenso e, muitas vezes, implica recomeçar!

A partir do 25 de Abril de 1974 fizeram-se grandes campanhas de alfabetização no nosso país para assim recuperar um vergonhoso atraso comparativo com outras realidades além-fronteiras, no entanto, apesar de até à época ter existido um elevado analfabetismo na população, impressiona a regular facilidade do aparecimento de extraordinários talentos a quase todos os níveis, desde a ciência ao desporto, passando pela literatura e pelas artes.

De tantos talentos e vocações que brotaram e deram corpo à nossa identidade enquanto nação antiga de nove séculos, para ter algum critério inócuo, por terem falecido no mesmo ano em que eu nasci, atrevo-me a referir dois: por um lado, um incansável divulgador de poesia e de poetas portugueses, prodigioso declamador e extraordinário actor, cujo nome honra uma sala de teatro, o carismático João Villaret; por outro, o transmontano Stuart Carvalhais, ilustrador e caricaturista de olhar perspicaz, personagem tremendamente fascinante que perante as dificuldades da vida, para concretizar a sua obra, sem meios adequados, usava os materiais de que dispunha naquele momento, incluindo os paus de fósforo com que acendia os seus cigarros, para com a sua ponta queimada riscar a negro um qualquer pedaço de papel branco.

Talento também nunca faltou na minha terra, a pombalina Vila Real de Santo António e, para não ferir indesejadas susceptibilidades, opto por apenas referir alguns dos que mais se destacaram na cultura e que já não estão entre nós: desde logo, Lutgarda Guimarães de Caires, poetisa e socióloga que dá o seu nome ao Largo da Bica onde nasci; António Aleixo, intemporal poeta popular repentista; Manuel Cabanas, talentoso mestre xilogravurista; António Vicente Campinas, poeta e grande prosador, que denomina a Biblioteca Municipal de VRSA e, por último, António Fernando dos Santos – Tóssam, pintor e ilustrador.

Uma vez que o tema da crónica evoluiu para este tema do talento e da vocação que claramente lhe está subjacente, avançando para tempos mais recentes, o que não impede que a estória tenha já mais de quarenta anos, não posso evitar referir o sublime e inspirado concerto intimista do virtuoso Chico Cardoso, renomado músico vila-realense que acompanhou Carlos do Carmo no “Olímpia” de Paris ou que integrou durante anos a banda do José Cid, no hoje abandonado apeadeiro da CP em VRSA, numa noite cálida de verão, junto ao cais de embarque do “Ferry” para Ayamonte, a bater ritmadamente no aço dos carris que ali morriam com duas das pedras calcárias que os amortalhavam.

A assistir embasbacados a tão memorável momento, estava eu e meu primo António Cavaco, sentados nas travessas de madeira enegrecida pelos despejos de combustíveis das desgastadas locomotoras, acompanhados pelo Luís Centeno, exímio tocador de guitarra, irmão do Mário Centeno, sem considerar mais algum outro amigo de que não me recordo e que porventura lá tenha estado; curiosamente, com excepção de mim e do enorme baterista Chico Cardoso, os outros três destacaram-se enquanto economistas com brilhantes carreiras profissionais.

Vem tudo isto a propósito de uma conversa havida com dois jovens e talentosos músicos da minha terra. Em determinado momento, um deles, falando de percursos e projectos a concretizar num contexto de objectivos futuros, usa a expressão inglesa “Inner-calling” para justificar decisões pessoais de âmbito profissional.

Com toda a naturalidade foi usado um anglicismo para abordar o tema do tradicional “Chamamento” ou “Vocação”, aquela inexplicável emoção sentida que vem de dentro de nós e que faz com que procuremos trilhar um determinado caminho.

A curiosidade está no facto da utilização de expressões inglesas de tão transversal a toda a sociedade, tornou-se banal e quase não nos damos conta disso: nas empresas, o estagiário passou a designar-se por “Trainee”, existe o “Back-office” e o “Front-office” ou o “Feedback” e o “Back-up” só para dar alguns exemplos.

A língua francesa, falada até na corte do czar russo, foi secundarizada e substituída pelo idioma de Shakespeare, a linguagem que quem quer ter êxito nos negócios, hoje praticados à escala global, tem obrigatoriamente de dominar.

Longe vão os tempos em que se acreditava que o Esperanto, língua criada por um médico polaco com um daqueles nomes eslavos com mais consoantes do que vogais, seria a língua franca universal, facilitadora da comunicação entre diferentes povos e culturas.

Hoje, mais de um século depois, esse papel é cumprido pela língua inglesa!

./Henrique Bonança

VRSA – 22 de Janeiro de 2021

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