Carros de choque
Foto: Denia.com
Opinião

Os Carrinhos de Choque’ da feira de Outubro

Era entre as feiras de Tavira e de Faro. A minha Feira fazia-me esperar meses por ela, levava todo o ano ano a amealhar tostões dentro de uma velha lata, para gastar no evento. Por ordem de importância destinava-se a comprar uma pistola de fulminantes estilo Colt de cowboy, uma lanterna a pilhas com mais foxe do que a do ano anterior, um canivete tipo suisso, umas voltas no carroussel Alverca e ao sempre formidável Poço da Morte com motas e carros..

Amiúde agitava-se a lata para aferir a quantidade de dinheiro no seu interior, ora escutando o tilintar das moedas ou o seu peso. Se não tivesse o peso calculado pedinchava-se umas moeditas ao pessoal lá de casa e por vezes tinha a sorte de me oferecerem uma notinha de vinte escudos….

Claro que a cereja no topo do bolo eram mesmo os carrinhos de choque. Convém dizer que havia dois tipos de pistas, uma dos carrinhos que andavam à volta e as batidas eram sempre um tanto violentas por trás e para o efeito os carritos tinham uns valentes pára-choques apoiados em molas. Mas os meus preferidos eram os de movimento livre que se movimentavam em todos os sentidos até andavam para trás e às voltas tipo voo de libelinha.

Estes carros tinham na traseira um tubo vertical com uma mola que corria sob uma rede metálica eletrificada instalada no topo em toda a superficie da pista que servia para alimentar a energia eléctrica ao carrito.Normalmente havia um protocolo a seguir para escolher o carrito que mais perfomance tinha, tanto em velocidade como em poder de acrobacia. Para isso bastavam uns minutos a olhar à movimentação na pista e havia sempre um que melhor corria, depois olhava-se para o chicote de mola e aquele que mais faíscas fazia era o escolhido e normalmente o melhor tinha sempre a côr vermelha.

Depois era só esperar que vagasse e ao parar para mudar de condutor e voilá era saltar para dentro. Ao apito do comando para iniciar nova corrida torcia-se o volante e ele arrancava na penica e era só escolher um carro a albarroar que fosse conduzido por moças mais bonitas e força. Por vezes as batidas eram violentas mas faziam parte da corrida. No meu carro havia sempre um pendura e volta sim, volta não trocávamos de lugar até porque cada um tinha cinco senhas para gastar o que dava dez corridas de 1 ou 2 minutos cada.

Claro que bastava uma simples desatenção para sermos albarroados pela tal menina a quem o tinhamos feito anteriormente. No primeiro dia as corridas eram tão disputadas que era dificil agarrar um carro e duravam por vezes menos de um minuto, nos dias seguintes o tempo de corrida aumentava e no final da feira chegávamos a rodar por volta de cinco minutos… Os bilhetes compravam-se no guichet e em cada cinco ofereciam uma.

Depois davamos uma volta pela feira mirando os brinquedos expostos, comprava-se algodão doce, um pouco de polvo assado, olhava-se às tendas de frutos secos que iluminadas por candeeiros a petróleo do tipo Petromax com o seu cheiro caracteristico e cravava-se ao pai uma ida ao circo depois do jantar.Só para não ser mais extenso, era um espectáculo a não perder ver a montagem dos circos por pessoal especializado que numas horas montavam as estruturas metálicas de apoio e até ao levantar do enorme e pesado pano de cobertura por cordas e roldanas que cravavam no solo com a ajuda de pesadas marretas.

Também era de curiosidade ver o alimentar dos leões, elefantes e outros.Nesse tempo em que não havia televisões, Ipods, computadores e telemóveis, havia sim o cinema CineFoz e a sempre a velha Tia Teresa das Ervilhanas a quem comprávamos uma medida de 5 tostões de amendoins e era um prazer o descascar e mastigar dos mesmos deliciando-nos com o sabor que já não é o mesmo…

Coisas.

./Amilcar Carlos

FOZ - Guadiana Digital