José Saramago no Clube de Leitura da BM Vicente Campinas

josé saramago 100 anos

O Clube de Leitura da Biblioteca Municipal Vicente Campinas realiza hoje mais um encontro mensal, dedicado à análise das obras do escritor José Saramago, prémio Nobel da Literatura, no âmbito do 100º do seu nascimento.

O município de Vila Real de Santo António associou-se às comemorações do Centenário do Nascimento de José Saramago com um vasto programa que inclui tertúlias, conversas, projeção de filmes, demonstrações artísticas e performances.

As atividades decorreram nas escolas do concelho e na Biblioteca Municipal Vicente Campinas, entre os dias 14 de novembro e 16 de dezembro.

Na programação exibiu a exposição «Voltar aos Passos que Foram Dados», que estará em itinerância nas bibliotecas escolares até ao dia 9 de dezembro. A mostra, organizada pela Fundação José Saramago, integra uma seleção e composição de textos de Carlos Reis e Fernanda Costa e design de André Letria e faz uma ‘viagem’ pela biografia literária de José Saramago e pelas obras e legado cultural e cívico do escritor.

O destaque da programação vai para a iniciativa «Passarola em viagem… nas escolas do concelho» que, ao longo dos meses de novembro e dezembro, irá evocar a Passarola Voadora de Bartolomeu de Gusmão – reconstruída para o efeito pelos serviços municipais – numa alusão à obra Memorial do Convento, de José Saramago.

A construção da passarola e o seu voo só foi possível com a união entre Bartolomeu Lourenço, Baltasar e Blimunda, personagens do romance, que conjugaram os seus saberes: a ciência, o trabalho artesanal e a magia, associada à música. Por isso, a passarola simboliza a fraternidade, a solidariedade a e igualdade capaz de unir toda a humanidade em prol do bem comum, da sua evolução e da conquista do progresso de modo sustentado, o que mostra a eterna luta do homem de se querer ultrapassar a si mesmo e atingir uma dimensão divina ou quase divina.

Também a partir de hoje e até ao dia 24 de novembro, a Escola Secundária de VRSA irá projetar o filme «Ensaio sobre a Cegueira», enquanto no dia 22, às 14h30, a sala de grandes grupos deste estabelecimento de ensino irá receber a iniciativa «Conversas com…», destinada ao debate e troca de ideias sobre o legado saramaguiano.

A 25 de novembro, às 21h30, o projeto «Arte com…» chega à Escola Secundária de VRSA com declamação de textos de Saramago acompanhados por música clássica tocada e dançada pelas associações locais. No dia seguinte, a 26 de novembro, a Associação ¼ Escuro inaugura, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas, a exposição fotográfica «Viagem fotográfica ao Algarve». A mostra é inspirada nos textos da obra «Viagem a Portugal», de José Saramago, selecionados por Diego Mesa, e tem o apoio da Direção Regional de Cultura do Algarve.

No mesmo dia e local, às 16h00, será apresentada a «Rota Saramago», criada a partir da obra «Viagem a Portugal». Nesta primeira fase, serão apresentadas as Rotas dos concelhos do Baixo Guadiana (Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António), as quais ficarão acessíveis – em formato digital – e poderão ser percorridas, de forma autónoma, por todos. O evento contará com a presença da Diretora Regional de Cultura do Algarve.

O programa de comemorações do Centenário do Nascimento de José Saramago é organizado pelo município de Vila Real de Santo António, em parceria com o Agrupamento de Escolas de VRSA, o Agrupamento de Escolas D. José I e as coletividades e associações locais.

Opinião do PCP na data do nacimento do escritor

Assinala-se hoje o centenário do nascimento de José Saramago, um dos maiores escritores de língua portuguesa, um dos mais destacados intelectuais do Portugal de Abril, militante comunista.

Ao assinalar o centenário de José Saramago, o PCP celebra o escritor que nasceu na Azinhaga (Golegã) a 16 de Novembro de 1922, de uma família de gente pobre e que com tenra idade veio para Lisboa e que, antes de ser editor, tradutor e jornalista, foi metalúrgico, desenhador e administrativo. Celebra o intelectual de Abril que muito cedo iniciou a sua actividade política, participando na actividade de resistência à ditadura fascista; o intelectual que deu um inestimável contributo para a afirmação da literatura portuguesa no mundo e para o reconhecimento do português como língua de referência na cultura mundial e que percorreu o planeta, levando a outros povos e outras gentes a sua reflexão sobre a situação no mundo; o escritor cuja obra é ela própria uma conquista de Abril,  que participou em importantes e diversificadas acções no movimento operário e popular no processo revolucionário, em defesa da Revolução e dos seus valores e conquistas. Celebra o militante comunista que no seu Partido, o Partido Comunista Português, a par da sua intensa actividade de criação literária, travou importantes combates políticos e eleitorais.

Celebramos a  inteligência criadora de José Saramago, expressa na sua vasta e singular obra. Mais do que um estilo, inventou um inovador ritmo oral na escrita, que não se limitou a narrar para os que liam, mas para participar activamente na narração, desenvolvendo e devolvendo a história a todos aqueles que, fazendo-a, não a escrevem. 

Evocamos também a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, um Prémio outorgado a um autor que abriu novas portas à projecção da literatura portuguesa no plano internacional. Um Prémio que transformou José Saramago num embaixador da cultura e da nossa Língua, que as projectou nos mais diversos cantos do mundo, numa intensa actividade, promovendo a reflexão não apenas acerca da sua própria obra, mas da literatura portuguesa, empenhado em mostrar a sua riqueza. Um Prémio, uma obra e uma intensa actividade que serviram o nosso País, projectou e prestigiou a cultura portuguesa além-fronteiras, contribuindo para tornar a nossa Literatura uma referência respeitada e permanente, no contexto da cultura literária universal. 

José Saramago foi um escritor que veio do povo trabalhador, a quem amou e foi fiel. Esse homem que, amando o seu povo, amou Abril, com tudo o que comportou de sonho, de transformação e de avanço progressista.

Mas no que respeita a José Saramago, a sua condição de comunista e a grandeza da sua obra literária não são facilmente dissociáveis: sem essa condição, a massa humana, o herói colectivo que percorre os seus livros, não se moveria com o mesmo fulgor e não se sentiria em muitos deles o penoso, trágico, exaltante, contraditório, luminoso, sombrio, incessante movimento da história. 

O PCP decidiu comemorar o Centenário de José Saramago com um programa próprio, apresentado numa sessão cultural em Outubro de 2021, em Lisboa, materializado num vasto conjunto de iniciativas de que se destaca a publicação da obra «José Saramago, um escritor com o seu povo», o programa da Festa do Avante!, em particular, o concerto sinfónico «Música na Palavra de  Saramago» e a Conferência «Uma visão universal e progressista da história – a actualidade da obra de José Saramago», realizada a 22 de Outubro de 2022, com o objectivo de contribuir para o conhecimento, a divulgação e para o debate em torno da sua obra, para a democratização da cultura, com especial preocupação com as novas gerações, bem como para o conhecimento do seu papel na luta contra o fascismo, pelas conquistas de Abril, como militante comunista. 

Pode dizer-se que as obras dos grandes artistas são imortais. E são. Sobretudo obras como as de José Saramago, onde estão presentes valores universais como a liberdade, a democracia, a emancipação social, a solidariedade, a soberania, a paz, a cooperação e a amizade entre os povos, o respeito pela Natureza, a esperança e a confiança nos povos, nos trabalhadores, na sua luta. 

Nestas comemorações, deu-se evidência a estes valores. Valorizou-se o papel da cultura como elemento de liberdade e de progresso social, na emancipação da humanidade; realçou-se esse homem comprometido com os explorados, injustiçados e humilhados da terra, que assumiu valores éticos e um ideal político do qual não abdicou até ao fim da sua vida; deu-se  expressão ao que o PCP entende por democracia cultural, indissociável das dimensões política, económica e social do seu projecto de uma Democracia Avançada para Portugal.

Nestas comemorações, o PCP reafirmou a importância da defesa da cultura enquanto factor de realização e emancipação humana. 

José Saramago – o escritor de uma vasta e singular obra de valor universal, onde está presente um olhar sensível e profundamente humano – deu um contributo inestimável a esse objectivo, a essa luta. Uma luta que continua por um mundo melhor, por um Portugal com futuro.