A espera
Opinião

Acerca de Diferentes Noções de “Já”

Crónicas Avulsas

Um amigo alemão de longa data, nos tempos em que ele visitava Portugal com alguma frequência, quando combinava encontro para um petisco ou para uma ida à “Praia-do-Coelho”, caso ele previsse não lhe ser possível cumprir com a hora, usava a expressão latina “Pro Tempore” que quererá dizer que é àquela hora, dependendo da conjuntura ou do contexto.

Ao escutar essas duas palavras, todos sabíamos o seu significado: ele poderia chegar quinze minutos antes ou depois da hora marcada. Ficávamos com meia hora de tolerância para gerir. Se nada fosse dito, a hora da janta seria a indicada, sem falhas, nem mais nem menos minuto.

Na verdade, o modelo funcionava lindamente: todos conhecíamos as regras e, caso fosse de aplicar o “Pro Tempore”, evitavam-se ansiedades desnecessárias motivadas pela espera.

Um par de anos mais tarde, em Faro, na recepção de uma empresa seguradora onde trabalhava, ao atender um cliente inglês, simpático senhor de meia-idade detentor de uma testa avantajada e bochechas rosadas que se fazia acompanhar pela esposa, senhora de pose aristocrática, muito rígida e sorriso plastificado, para poder preencher um formulário, necessitei de lhe perguntar a profissão; ele, com sotaque carregado, respondeu prontamente: “Aqui em Portugal sou esperador, é a minha ocupação principal, os portugueses fazem-me esperar muito!”

Devo dizer que a resposta não me surpreendeu, aceitei-a com naturalidade. Culturalmente, talvez pela influência do clima, somos um povo que adora sentar-se em esplanadas, bebericar um café, conversar serenamente, sem denotar pressas.

Como consequência dessa forma de estar descontraída, o advérbio “já” possui vários matizes e pode ser entendido de forma diferente de pessoa para pessoa: para alguns de nós, sobretudo em contexto profissional, terá um significado imediatista, ele é imperativo, algo que implica acção instantânea.

Por outro lado, para outros não parece possuir essa urgência, tendo em conta a forma como gerem as situações com que se deparam; para estes, a expressão terá um significado que implica reacção ou movimento, todavia, será para mais logo ou assim que for possível. Adquire um sentido muito vago e abrangente, como um medicamento natural para vários males: o que há para fazer, tanto pode ser feito dentro de cinco minutos, como dentro de meia hora.

Esta postura e comportamento pressupõem o envolvimento de pessoas que por vezes aparentam que nada os perturba, nem sequer parece saberem que há alguém a quem lhe foi dito que iria ou faria “já” qualquer coisa e que esse alguém ficou à espera, a “ferver” intensamente e a pensar que poderia estar a cumprir com outras tarefas mais importantes do que esperar.

Há pessoas que apesar de dizerem que estão “já” a chegar a determinado local, afinal ainda nem sequer saíram do sítio onde estão. Aconteceu comigo, envolveu um cliente irlandês de têmpera semelhante à nossa: com encontro marcado comigo em Tavira a determinada hora, dez minutos depois telefona para me pedir para eu esperar um pouco mais, uma vez que estava ele a sair de Lagos. Como tinha uma outra reunião marcada com outro cliente em Vila Real de Santo António, não me foi possível aceder ao pretendido e, como consequência, perdi o cliente irlandês.

O chegar atrasado também pode ser usado artificialmente por quem acha que deste modo projecta nos outros uma portentosa exibição da sua autoridade e da sua grande importância: profissional, particular ou política!

Em Altura tive um vizinho francês que garantia que em Portugal os mosquitos jamais falham a sua hora de chegada: segundo a sua teoria, depois de muita observação pessoal, dele e da esposa e amigos convidados, a petiscar ao entardecer sentados debaixo do alpendre da sua casa, eles aparecem de rompante ao lusco-fusco, esvoaçam à nossa volta, aborrecem-nos com o irritante zumbido junto às orelhas, atacam-nos impiedosamente, picam-nos a pele, sorvem-nos o sangue durante meia hora e, depois, desaparecem na noite que entretanto chegou de mansinho!

Henrique Bonança

VRSA – 5 de Janeiro de 2021

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